A IMUTABILIDADE DO HOMEM
Os tempos mudam. Os costumes mudam e, em muitos aspectos, até mesmo a sociedade muda. A única coisa que permanece a mesma é o átomo das relações humanas, isto é, o homem.
A morte de Jesus Cristo foi, sob um prisma histórico, puramente política. Era necessário frear o avanço de um movimento social de base, promovido por um carpinteiro que pregava a igualdade entre os homens, além de se intitular filho de Deus e rei do povo hebraico. Nestes aspectos, Cristo ameaçava não só a posição sacerdotal judaica como também o próprio império romano. Sua crucificação teria por desígnio então a desintegração do movimento.
A história nos revela outros casos semelhantes. Joana D’arc – heroína na luta pela independência da França em relação à Inglaterra – teve sua morte decretada por dois motivos evidentes: o primeiro era desacreditar os franceses de que ela se tratava da lendária virgem que levaria a França à vitória; o segundo por ter ameaçado o poder da igreja católica quando declarou ouvir vozes de divindades e, deste modo, dispensava o poder de intermediação dos clérigos entre o homem comum e Deus. Nacionalmente, Temos a morte de Tiradentes: executado à forca e esquartejado como punição por trair a coroa portuguesa num levante que ficou nos autos da história como inconfidência mineira. Sua morte serviu de exemplo àqueles que tentassem se aventurar por esses caminhos.
Do mesmo modo, a morte de Saddam foi meramente política. Seu julgamento, condenação e execução tiveram por finalidade representar a vitória americana e tentar um possível desfacelamento da resistência realizada por grupos pró-Saddam.
A grande questão a ser levantada nessas evidências históricas é o caráter humano. No caso Saddam, a concretização do julgamento – realizado por uma corte local e não por um tribunal internacional, uma vez que seus crimes foram considerados como crimes de guerra e contra a humanidade – nos revela que sua condenação já estava pronta desde seu início. Tudo não passou de representação teatral engendrada para justificar sua execução – assim como o episódio bíblico em que Poncio Pilatos lava as mãos sobre a responsabilidade da morte de Cristo. Outrora, foi o desejo de partes do povo – facilmente manipulado pelo calor do momento – que representou a licitude da condenação. Hoje, foi a montagem e encenação de um julgamento.
Modificam-se personagens, épocas, atores e contexto, mas a condição humana e os motivos são relativamente os mesmos. A vida é relegada ao banal enquanto a insaciável sede por poder não e mitigada.

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