12 maio 2008

“Pessoal do Ânima”: Animação até no nome

Por Zequias Nobre

Era por volta das 11 horas da manhã quando Thyago Mourão e Jean Campos aproximam-se a uma roda de amigos reunidos no saguão do Instituto de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso. Vinham às gargalhadas. É comum vê-los juntos com os amigos e companheiros de teatro Eduardo Butakka e Ana Rosa sempre rindo muito.

O grupo de quatro amigos é reconhecido pelos colegas da universidade como pessoas “irreverentes e extrovertidas”. “Estão sempre fazendo piadas sobre qualquer assunto”, afirma Guilherme, estudante de jornalismo e colega de faculdade”. “Tem hora que eu não sei quem é ator, quem é Jean, quem é personagem”. Acrescenta Mariana Vianna, amiga.

Andreza Pereira, colega de universidade diz que "A Ana Rosa, o Jean e o Eduardo parecem estar sempre testando na vida esquetes novas para outra peça de teatro. Eles jogam iscas pra saber se aquela frase ou aquele gesto subiria pro tablado. É sempre bom vê-los preparando os próximos atos, enquanto nós pensamos que eles só estão mesmo nos fazendo rir".

É justamente esse espírito irreverente, debochado e irônico que os atores levam para cima do palco, nos espetáculos que encenam.

Desde que assumiu a coordenação do “Pessoal do Ânima” das mãos do Professor Gilberto Nascer, em 2006, Eduardo Butakka acabou consolidando, ao lodo dos amigos, o estilo de peças apresentadas pelo grupo. Das três encenações atualmente desenvolvidas, duas são comédias sendo a outra um musical infantil. Todas muito bem aceitas pelo público, com grandes destaques para as humorísticas, que tem as sessões sempre lotadas.

Sobre as de gênero de humor, Thyago comenta: “[As nossas peças não são] uma comédia gratuita. A gente preza muito pela critica social. E no meu pensar ela não pode ser construída com drama. Nada melhor do que [a sociedade] ir ao teatro e rir da própria desgraça”.

A peça que acabou concretizando o rumo do grupo, sendo por isso tida como seu “carro chefe”, foi “Hã, alienada, eu?!”, apresentada no 6° Fest Anima – festival de teatro do CEFET –, em 2002, da qual saiu vitoriosa. Trata-se de uma crítica a diversão cultural, tendo a mídia como base.

Em 2006 a companhia teatral lançou uma nova comédia. “Segredos de Liquidificador” seguiu a linha da comédia de “realismo fantástico”, como define Thyago. Os atores se propuseram a fazer uma crítica social através da “desconstrução da realidade”. A peça trás algo de novo ao contar com a participação do público e chama a atenção, principalmente, pelo formato em esquetes – pequenas seqüências cômicas, normalmente apresentadas em conjunto com outras esquetes, sem, necessariamente, possuírem ligações entre si.

Já no fim do ano passado o “Pessoal do Anima” encenou o musical infantil “Cavalo Transparente”, adaptação da obra da escritora infantil Sylvia Orthof. Segundo Ana Rosa, foi uma das peças mais difíceis de montar e encenar. Os integrantes chegaram a fazer um curso com o Dr. em teatro Djalma Truller sobre teatro infantil. "O processo todo de composição da peça foi muito trabalhoso, mas também muito prazeroso. Tivemos aulas de expressão corporal, de canto e dança, entre outros”, conta satisfeita. Thyago, por sua vez, relembra as dificuldades em transpor as músicas do livro para as peças. “Tinha em mão a letra, mas não a melodia”.

Apesar de ser a linha atualmente adotada pelo grupo, nada impede que sejam desenvolvidos outros tipos de peças, garante Thyago. Uma prova disso é a mais nova do grupo. A opção pela cômica está mais restrita ao número de integrantes (na casa dos 20) e de suas afinidades, do que qualquer outro motivo. Ele lembra que no passado, quando o “Pessoal do Anima” chegou a ter 100 participantes (entre figurinistas, atores, produtores, diretores etc.), um leque maior de gêneros teatrais eram apresentados ao público ao mesmo tempo.

Foi da efervescência do caldeirão desta época que surgiram os que são hoje os mais renomados grupos de teatro do Estado, como o Fúria, o Mosaico, a Confraria de atores, o Cena Onze e o André D’lucca, só para citar alguns, além, é claro, dos humoristas de maior destaque em Mato Grosso, Nico e Lau.

Mesmo seguindo o estilo clássico de teatro, aquele em que há sempre uma quarta parede entre o espetáculo e o público, isso não impede que os atores interajam com o público em vários momentos nas peças. "Um espetáculo nunca é igual ao outro. E é isso que me encanta. Morin já dizia: O ator de cinema é escolhido pelo o que ele é e não figura que ele representa. Já o ator de teatro é o contrário. Ele tem muito mais liberdade para atuar, para se perfazer”, comenta Ana Rosa.

Criado em 16 de Outubro de 1987 pelo Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Mato Grosso – CEFET-MT, Gilberto Nascer, o grupo é o mais antigo do Estado e está vinculado à instituição, “mas é aberto ao público”, informa Thyago. Todos os interessados podem participar das oficinas e entrarem para a companhia de teatro. “Basta que haja comprometimento dos alunos e que não faltem as aulas”, ressalta.

Quem tiver interesse pode se informar pelo telefone 9219-1076 ou procurar o CEFET-MT, na Rua Zulmira Canavarros, n. 95 - Centro, Cuiabá-MT.

E o humor volta aos palcos nos dias 21, 22, 23 do próximo mês. O “Pessoal do Ânima” reapresenta a peça “Segredos de Liquidificador” na livraria Janina do Pantanal Shopping. Quem sentiu um pouco de curiosidade em conhecer os trabalhos dos atores só terão que desembolsar R$ 12,00. Se for estudante, o preço cai para R$ 6,00. Um valor que não representa a qualidade do grupo, mas que cabe no orçamento de qualquer pessoa.